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Cristãos Perseguidos: E Se Fosse Você?

Vivemos em um mundo de muitos contatos, mas de pouco relacionamento significativo. Pense: de todas as pessoas que você conhece, com quantas pode realmente contar?

Alguns relacionamentos crescem conosco: nossa família, amigos de infância, vizinhos. Outros, optamos por cultivar.

O convite que a Missão Portas Abertas lhe faz é para que em 2010, você escolha aprofundar seu relacionamento com a Igreja Perseguida, colocando-se no lugar de nossos irmãos. Nosso tema para este ano que se inicia é este: "Cristãos
perseguidos: e se fosse você?". Que você olhe o mundo ao seu redor pelos olhos dos perseguidos.

NA MINHA PELE

É próprio do ser humano se esquecer das coisas - ainda mais nos dias de hoje em
que há tanto para se lembrar. Por isso, Deus instituiu, ao longo da história, várias situações que nos ajudassem a nos lembrarmos de fatos importantes. A Santa Ceia, por exemplo, é feita em memória de Cristo, para que nos lembremos de sua morte, ressurreição e segunda vinda.

Da prisão, Paulo pedia que não se esquecessem dele: "Lembrem-se das minhas algemas'; escreveu aos cristãos de Colossos (CL 4.18). O autor da epístola aos Hebreus foi além e pediu para que nos sentíssemos presos com ele, como se sofrêssemos os mesmos maus-tratos (Hb 13.3).

O primeiro passo para se colocar na pele dos perseguidos é lembrarse deles. Ao agradecer pelo alimento, oramos pelas famílias de pastores presos que passam necessidades. Ao ir à igreja, agradecemos pela liberdade de culto que temos e pedimos liberdade para nossos irmãos.

Recentemente, uma colaboradora da Missão Portas Abertas viajou a Israel, para visitar irmãos e ministérios palestinos e israelenses. Ainda no Brasil, para embarcar no avião, essa irmã e sua bagagem tiveram de ser revistadas, por ela ter em seu passaporte um visto de entrada no Egito.

Chegando à Palestina, essa colaboradora ouviu muitos cristãos palestinos comentarem da dificuldade que tinham ao passar pelos checkpoints - barreiras instaladas entre os territórios israelenses e palestinos, nos quais os palestinos têm de solicitar autorização para prosseguir a viagem.

Um pastor contou que fora visitar uma congregação em outra cidade. No caminho de volta, teria de passar por um checkpoint. O soldado de plantão interrogou o pastor e revistou seu carro. Mas se recusou a dar passagem ao pastor, que teve de ficar por duas horas no carro, esperando para continuar o trajeto e voltar para casa.

Quando começou a viagem de volta ao Brasil, a colaboradora foi novamente interrogada. No entanto, essa revista foi mais demorada que a anterior. Retiraram todo o conteúdo de sua mala e não permitiram que ela embarcasse no  avião com coisas simples, como seu tubo de creme dental.

Ela comentou: "Senti muita raiva naquele momento. Tudo aquilo era injusto e  desnecessário. Fui tratada com suspeitas só por causa de um carimbo antigo em meu passaporte! Mas, naquele momento, me lembrei do pastor palestino e de tantos outros irmãos que passam por situações ainda mais constrangedoras que essa e com muito mais frequência. Então, Deus me ajudou a orar, pedindo para ser paciente.  Também me lembrei de meus irmãos palestinos e pedi paciência e um caráter de  Cristo para eles".

COM MEUS OLHOS

Quando pensamos nos desafios diários dos perseguidos, nos sentimos inclinados a  aliviar seu sofrimento. Assim foi que Paulo instruiu os gálatas: "Levem os  fardos pesados uns dos outros e, assim, cumpram a lei de Cristo" (GI 6.2).

Às vezes, apesar da vontade de aliviar o sofrimento do irmão, nos vemos  imobilizados, pois não sabemos como "levar seu fardo".

A forma mais imediata de agir é orar. No entanto, para que o relacionamento se  aprofunde, é preciso que a oração seja um compromisso.

Certo líder cristão afirmou: "O mandamento de Deus para nós aqui, ao norte do  Egito, é fortalecer os fracos, trazer de volta os desgarrados e buscar os perdidos. Mas, às vezes, as atividades e pressões me afetam. Outro dia, a polícia me convocou para um interrogatório e queria saber por onde eu havia andado. Minha saúde está abalada, o fardo é pesado e a caminhada é difícil. Mas o Senhor gentilmente me lembrou do Salmo 126.5: 'Os que com lágrimas semeiam, com júbilo ceifarão'. Perguntei a Deus se outra pessoa poderia chorar minhas lágrimas por algum tempo".

Como chorar as lágrimas desse irmão? Isso só pode ser feito por meio da oração.  Quando nos empenhamos em interceder por alguém, as lutas daquela pessoa pela  qual oramos começam a ser nossas próprias lutas.

EM MEU CORAÇÃO

Levar os fardos um dos outros, como colocou Paulo, é um modo de cumprir "a lei de Cristo". A lei suprema de Jesus é "Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mc 12.31). Para se colocar de fato no lugar dos cristãos perseguidos é preciso amá-Ios. Há o amor que vai até as últimas consequências, como disse Jesus:
"Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos" (Jo
15.13).
Uma pessoa que age assim é o Pablo*, da Colômbia. Ele dedica sua vida para servir irmãos que sofrem opressão nas selvas colombianas, a ponto de ele mesmo  se tornar um cristão perseguido. Sua difícil tarefa consiste em atravessar territórios controlados por forças armadas e levar Bíblias, materiais cristãos e dar estudo bíblico aos que se  encontram isolados.

Mas isso é proibido. Então, com doações de roupas e calçados que recebe de uma organização canadense, Pablo organiza caixas de ajuda humanitária. Mas, no fundo da caixa, bem escondidas, estão Bíblias e outros materiais.

Ele coloca as caixas em sua caminhonete vermelha, e dirige para regiões onde ninguém se atreve a ir. Quando chega a um ponto que seu veículo não consegue  atravessar, Pablo descarrega a caminhonete e leva as caixas na mão. Certa vez, ele parou sua caminhonete e andou a pé por oito horas para fazer a  entrega do material. Percorrendo o caminho de volta, Pablo começou a sentir terríveis câimbras nas pernas, a ponto de não conseguir ficar em pé. Passando por ele um camponês em uma mula, Pablo pediu ajuda. O homem o carregou em seu animal até que alcançassem o veículo. Pablo se contorcia de dor, mas não queria que o camponês notasse que era câimbra. "Ele pode achar que eu sou um fracote", pensou ele, "e não vai querer mais me carregar".

Chegando à caminhonete, Pablo dirigiu mais algumas horas até Bogotá, mas não para descansar. Era para encontrar um grupo de parceiros brasileiros que  gostariam de conhecê-Io.

Apesar de estar com os pés inchados, e extremamente cansado pela viagem, Pablo ficou feliz ao encontrar o grupo. "Como pode? Vocês vieram de tão longe para ver um homem sujo como eu".

Os cristãos perseguidos não são super-heróis que moram do outro lado do mundo. São pessoas que sofrem injustiças, que experimentam o desânimo, que sentem câimbras, assim como nós. No entanto, às vezes, acabam sem quem os defenda, os anime e alivie suas dores. Por sermos suscetíveis aos mesmos sofrimentos que  eles, temos condições de nos colocar em seu lugar, com o objetivo de aliviar suas dores que, a partir daí, vão ser nossas também.

*Nome verdadeiro alterado por motivos de segurança.

Fonte: Revista Portas Abertas - Janeiro 2010