Não posso me relacionar com Deus através de uma idéia ou conceito dele, nem por causa de uma vaga lembrança que tenho do que Deus significou em minha vida em um dado momento do passado, repetindo de modo formal rituais de louvor ou oração. Somente posso me relacionar com Ele através de uma verdadeira amizade, proporcionada por uma autêntica e permanente comunhão.

Se tenho um amigo a quem tenho apreço e que também tem apreço por mim, mas moramos distantes um do outro e somente nos comunicamos raramente, através de mensagens, ainda existirá entre nós um conhecimento e uma amizade, mas não uma comunhão plena. A influência portanto que um possa ter sobre o outro é limitada. A nossa amizade deixa assim de ser atual, mas torna-se apenas formal.

Assim como a comunhão é necessária para haver uma amizade real entre pessoas, a chave para uma verdadeira vida espiritual é a comunhão com Deus. Dela nasce um autêntico relacionamento com Ele, pelo qual então passa a existir entre eu e o Pai uma amizade atual, dinâmica. Quando eu falar ou orar em nome de Jesus, estarei orando ou falando com a autoridade de um verdadeiro amigo dele e assim a minha pregação ou a minha oração terão eficácia.

Mas como estabelecer uma comunhão permanente com Deus? Eu deveria ser grato a Ele por sua salvação, por tudo que Ele faz por mim através de sua graça e por isso sentir um anseio, uma sede de conhecer a Deus e estar em sua presença, portanto não deveria ser necessário nenhum esforço para buscar a Deus. Muitos cristãos experimentam esse anseio de Deus no início de sua vida espiritual, mas com tristeza percebem que com o tempo ele vai se enfraquecendo, até se tornar algo apenas esporádico.

Voltando ao exemplo anterior de uma amizade verdadeira, se um dia acontece desse amigo se jogar na frente de um carro para salvar a minha vida, sem dúvida eu lhe seria eternamente grato por isto. Entretanto, não consigo ser naturalmente grato ao maior dos meus amigos, aquele que deu sua vida por mim sem que nenhum bem eu lhe tivesse feito, mas ao contrário, apesar de muito eu havê-lo ofendido: Jesus, o Filho de Deus.

A gratidão que deveríamos sentir pela manifestação da graça divina em nossas vidas nem sempre é real, pois nem sempre é evidente para nós o real significado da salvação que recebemos e a magnitude das bênçãos concedidas por Deus diariamente em nossas vidas. Além disso, o gozo carnal e os prazeres materiais são naturalmente muito mais atraentes a nós do que as coisas espirituais. Por isso muitas vezes nos sentimos mais próximos de Deus quando experimentamos o sofrimento e a dor, pois nestas ocasiões são afrouxados os laços da carne e o espírito busca espontaneamente a Ele.

A carne não se converte mas precisa ser subjugada pelo espírito. Somente por esta sujeição da carne é possível o "viver em espírito" e a manifestação em nossa vida do "fruto do espírito", de que fala o apóstolo Paulo. Entretanto, assim como Deus não impõe sua vontade sobre a nossa vontade, o espírito não pode por si só subjugar a carne, mas precisa que o eu imponha por sua vontade este jugo sobre ela.

Mas para que o eu possa impor sobre a carne o jugo do espírito, é preciso uma motivação. Estes motivos são muitos: além da gratidão a Deus pela salvação e pela herança da vida eterna, a decisão de não ser escravizado pelo jugo da carne, que é um vício mortal e também o desejo de experimentar o gozo espiritual que é proporcionado pela comunhão com Deus. Este gozo espiritual não deve ser o único motivo para me aproximar de Deus e subjugar a carne, pois ele também glorifica o eu, ainda que de uma forma mais sutil, e por isso me impede de submeter minha vontade à vontade Deus, de me render completamente a Ele.

Se nos convertemos realmente a Cristo e aceitamos pela fé o seu jugo em nossas vidas, somos então capacitados a subjugar a carne e a viver em comunhão com Deus, pelo seu Espírito que passa a viver em nós. Esta capacidade entretanto tem que ser exercitada diariamente, motivada pelo amor a Deus e pelo desejo de liberdade espiritual, através de um esforço persistente e voluntário de busca da presença de Deus e da obediência à sua direção para as nossas vidas, para que paulatinamente nossa natureza espiritual possa prevalecer sobre a natureza humana.

Como fazer isso em termos práticos? Assim como uma verdadeira amizade entre duas pessoas é construída pela convivência, pelo conhecimento mútuo, pelo suporte mútuo nos momentos difíceis e pelo compartilhamento de experiências de vida, assim também é construída minha comunhão com Deus. Ele já me conhece o bastante, ou desde o ventre de minha mãe, como diz o salmista. Ele me suporta e consola, e compartilha comigo os momentos de alegria e de dor. Ele me livra de perigos e me dá vitória nas lutas diárias, muitas vezes sem que eu nem mesmo tenha consciência disto. Ele faz tudo isto por amor a mim, e jamais poderei retribuir no mesmo valor tudo o que Deus faz por mim. Por isto, o que eu posso oferecer a Deus é retribuir o seu amor, através da da minha fidelidade a Ele, honrando-o, adorando-o e servindo-o conforme a sua vontade.

Se eu pudesse ter a consciência da real grandeza do amor que Deus tem por mim, saberia também quão pequeno é o amor que eu tenho por Ele, por maior que possa me parecer. Creio que o apóstolo Paulo tinha uma real noção do amor de Deus por nossas vidas, ao escrever:

"Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram.
E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou."2 Corinthians 5:14-15

Deus não necessita da minha adoração ou das minhas obras, mas assim como a esposa reverencia seu esposo por que o ama, a minha adoração e a minha obediência a Deus são uma medida do meu amor sincero por Ele. A vontade da carne não é subjugada, como muitos pensam, pela repressão pura e simples, mas pelo fortalecimento da minha comunhão com Deus, que fortalece em mim o meu amor por Ele. Esta comunhão por sua vez é construída diariamente pela busca constante de Deus, através da sua palavra, da oração, do louvor, da comunhão com a igreja e das boas obras que Ele preparou que eu faça.