Os antigos gregos ensinavam a temperança, a prudência, o bom senso, a moderação e a modéstia como virtudes típicas de um estado de espírito harmonioso e saudável (Sophrosyne). Estas eram virtudes opostas à Hybris que significava o contrário: excesso, orgulho, insolência, impetuosidade, descontrole, desrespeito, desespero e violência. Segundo eles, a sabedoria estava basicamente em evitar os excessos. Entretanto, a busca filosófica do equilíbrio, normalmente conduz à mediocridade, à indecisão e ao descompromisso.
A realidade em que vivemos parece ser determinada por dois princípios opostos, o que é conhecido como dualidade. Estes princípios opostos entretanto não são todos neutros e complementares ou duas faces de uma unidade, como afirma a filosofia chinesa. Existem na verdade duas classes de dualidades. Na primeira delas os opostos são físicos, ou naturais. Na segunda classe, os opostos são abstratos, decorrentes da psicologia humana, como as emoções e os princípios morais. A dualidade física ou natural é inerente à criação, mas a dualidade abstrata se originou do separação entre o homem e Deus. Os primeiros seres humanos criados não possuíam quaisquer conflitos psicológicos, pois viviam em comunhão com Deus e eram plenamente felizes. Somente depois de pecar o ser humano veio a conhecer o bem e o mal, o amor e ódio, a paz e a guerra. A solução para o conflito dos opostos não é o equilíbrio socrático ou o Caminho do Meio budista e tampouco a “Não Ação” taoísta.
O desconhecimento da queda do homem, que levou à corrupção da natureza, fez com que as mais diversas culturas formassem idéias filosóficas que tratavam da mesma forma toda dualidade, como se ela fosse apenas as duas faces moralmente neutras de um todo, e que afirmavam que a atitude mais sábia seria não escolher um dos polos, mas o equilíbrio entre ambos. Entretanto, o que as religiões e filosofias do mundo que adotam este caminho desconhecem é que não existe tal posição. Na verdade, escolhemos sempre um dos polos, embora tenhamos a ilusão de que vivemos em sábio equilíbrio. Assim, quem escolhe a posição filosófica do equilíbrio dos opostos escolhe na realidade a posição contrária à verdade, que conduz no mundo a uma vida medíocre e no plano metafísico, à morte espiritual. Jesus disse a seus discípulos: “Quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha.” (Mateus 12:30) A ausência de referenciais cristãos atrela toda a iniciativa humana à sua própria sabedoria. Esta sabedoria entretanto nada mais faz do que conformar o ser humano à realidade material e a buscar superar suas próprias fraquezas e limitações através de suas próprias forças.
Um dos melhores exemplos da mediocridade das soluções de meio termo são os estilos de exercício da autoridade. As melhores teorias de administração afirmam que entre a autocracia e o liberalismo, o melhor caminho é o da democracia. Este é realmente o caminho que tem produzido historicamente os melhores resultados, tanto empresarialmente quanto socialmente. Entretanto, isso não se deve a uma suposta virtude desta forma de exercício do poder, mas à falta de virtudes suficientes daqueles que exercem a autoridade para exercê-la de forma sábia e justa. A democracia é assim uma solução de meio termo entre os desmandos de um tirano e a ineficácia de um liberal permissivo e como toda solução mediana, é medíocre em seus resultados. Na verdade, contrariamente à sabedoria popular, a voz do povo não é a voz de Deus. Deus não se coloca a favor da maioria, mas a favor dos humildes e oprimidos, por um lado, e dos justos, dos valentes e dos perseverantes, por outro lado. Infelizmente, Deus sabe que a maioria dos homens não herdará o seu Reino, pois embora todos sejam chamados, poucos são os que são fiéis a seu chamado e perseveram até o fim no caminho da justiça.
Tomemos por exemplo os opostos extremos avareza e perdularismo. O equilíbrio não está em se gastar conforme o que se ganha, mas em se gastar segundo o que é realmente necessário, segundo uma ordem de prioridades. O homem realmente sábio gasta normalmente muito menos abaixo da sua renda, mas eventualmente gastará muito mais, por que é realmente necessário. Um outro exemplo é o da honestidade e da desonestidade, em que o equilíbrio consiste não em ser honesto em coisas importantes, e se permitir ser desonesto em coisas secundárias. O equilíbrio neste caso está em ser totalmente honesto, sem no entanto impor um juízo moralista sobre o outro, exigindo dele a mesma atitude. Este é também o caso entre mentir ou dizer a verdade. Não existe um meio termo, o indivíduo que é íntegro sempre dirá a verdade, mas fará isto com amor, sem a intenção de ferir ou condenar.
Nos estudos de administração de conflitos, existem quase sempre três atitudes gerenciais básicas. Aqueles que se envolvem plenamente no conflito, aqueles que fogem dele e aqueles que tentam contemporizar, sob pretexto do equilíbrio, o que é justamente a posição mais medíocre. O contemporizador, diante do conflito, sugere rapidamente uma decisão pelo voto, mas a vontade da maioria quase nunca é a melhor solução, apesar de ser a mais indolor e a mais rápida. A atitude mais produtiva diante do conflito não é permitir a disputa indiscriminada entre lados conflitantes até a vitória do mais forte, e tampouco o falso equilíbrio da contemporização, mas aquela que produz o verdadeiro equilíbrio, isto é, a busca racional e objetiva da melhor solução.
A maioria das pessoas hoje evita formar opiniões definidas sobre o que quer que seja, preferindo ficar "em cima do muro", sob o pretexto de que as situações envolvidas são muito complexas. Esta posição de descompromisso ou de constante mudança de posições, se deve na verdade ao fato de que perdemos nossos referenciais morais positivos, e vivemos um relativismo moral em que é considerada tacanha e até mesmo inaceitável a defesa do que é justo e do que é bom. Substituímos esses ideais por ideais humanistas, "equilibrados", ou "politicamente corretos", que buscam acomodar todas as tendências, todos os desejos humanos, todas as expressões culturais e religiosas como sendo equivalentes, debaixo do guarda-chuva confortável da conciliação, e defender apenas os direitos humanos básicos, como se isto bastasse para nossa realização existencial plena.
Evidentemente, nenhum de nós é completamente bom ou completamente mau, mas isso não significa que devemos aceitar essa ambigüidade como natural. Todos nós fazemos coisas boas e coisas más, mas a atitude equilibrada não é se conformar com isto, mas buscar incessantemente fazer o bem. Todos nós temos consciência da inevitabilidade da escolha entre fazer o bem e fazer o mal, embora a maioria das pessoas negue a existência de referenciais morais para isto. As pessoas se tornam efetivamente boas ou más, na medida em que prevalece nelas a atitude para o bem ou para o mal, ainda que elas não tenham consciência disto. Nossa atitude cínica e ambígua diante da moralidade revela na verdade que desistimos de tentar sermos bons, por acharmos que não vale a pena, pois hoje vemos o mundo não mais pelas lentes dos princípios morais que foram introduzidos pelo cristianismo, princípios estes que abandonamos por achar são apenas uma das muitas formas de ver o mundo e sem dúvida, a mais incômoda delas.
Jesus afirmou que quem não estivesse a favor dele estaria forçosamente contra ele. Ele não ofereceu uma terceira opção, ou um caminho do meio, de neutralidade. Ele afirma em sua mensagem dirigida a uma das igrejas primitivas : “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.” (Apocalipse 3:15-16) Isto não significa entretanto que temos que escolher uma posição extremista. Ou só trabalho ou só inatividade. Ou a extroversão total ou a introversão total. Ou o amor total ou o ódio total. Ou completo otimismo ou completo pessimismo. O que o cristianismo ensina é que é necessário tomar uma posição, sem no entanto deixar de reconhecer que devido a nossa imperfeição, vamos eventualmente permitir que o lado contrário desta atitude se manifeste, ou por necessidade de nossa natureza biológica, por razões práticas ou ainda por uma falha emocional ou de caráter.
Assim , não podemos apenas trabalhar, eventualmente temos também que descansar, por uma exigência fisiológica. A extroversão é melhor atitude, mas às vezes precisamos nos voltar para dentro, para nos prepararmos para nosso relacionamento com o mundo. O amor é uma virtude, mas às vezes somos dominados pela ira. O otimismo é essencial, mas às vezes é necessário considerar as possibilidades contrárias, devido à sua real probabilidade de ocorrer.
Certa vez, estando na Judéia, Jesus entrou em uma aldeia e foi recebido na casa de Lázaro, por suas irmãs Marta e Maria. Enquanto Marta, preocupada com a casa, se dedicava a seus afazeres e se indignou com o fato de Maria não ajudá-la, mas dedicar toda a sua atenção a Jesus. Jesus disse então a Marta: "Marta, Marta, estás ansiosa e perturbada com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou mesmo uma só; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada." (Lucas 10:41-42). Jesus ensina aqui o princípio do verdadeiro equilíbrio entre a vida material e a vida espiritual, ao mostrar que a sabedoria está em se dedicar o mínimo possível à vida material e o máximo possível à vida espiritual, pois esta é a que realmente importa.
O equilíbrio verdadeiro, portanto, não está em permitir que os opostos assumam aleatoriamente ou moderadamente o domínio de nosso corpo, de nossas emoções e de nossos princípios, como se fossem equivalentes, mas em saber que existe apenas um polo que está vinculado à vida e à verdade e que seu oposto necessariamente conduz ao engano e à morte.
No caso das coisas materiais, o equilíbrio não está na moderação, mas na maximização daquilo que é necessário e na minimização daquilo que é prejudicial. Toda atividade deve ser maximizada ou minimizada em quantidade e qualidade necessárias. Todo e qualquer vício, deve ser obviamente eliminado ou minimizado, dado seu caráter prejudicial, conforme a capacidade de cada um.
No caso das coisas não materiais, o equilíbrio não está em um esotérico Caminho do Meio, acima do bem e do mal, mas na maximização do bem, ou daquilo que é bom, e na eliminação ou minimização do mal, ou daquilo que é prejudicial, conforme os mandamentos de Deus.
Saber encontrar o equilíbrio verdadeiro é portanto uma virtude que advém da sabedoria. Esta sabedoria entretanto não consiste da sabedoria humana, como criam os filósofos pagãos, mas na sabedoria de Deus. A prudência, o bom senso e a modéstia são sem dúvida virtudes a serem cultivadas, mas não segundo um referencial filosófico humano apenas, que é falho e transitório, mas segundo o referencial absoluto da Palavra de Deus.
Devemos sempre buscar fazer o bem, fazer o melhor e vencer, embora saibamos que nem sempre estas atitudes positivas vão prevalecer em nossas vidas e aceitar isto sem se culpar ou se condenar, mas confessando sempre diante de Deus nossas eventuais falhas, para que nossa consciência esteja sempre limpa segundo sua justiça e a sua graça. Não nos conformemos com o caminho do meio, com a mediocridade do mundo, mas reconheçamos que fomos chamados para sermos filhos de Deus, herdar toda a sua riqueza e plenitude e conhecer a sua glória e bem-aventurança eternas!