O prédio não parece tão especial. É uma estrutura de baixo pé-direito, de teto plano, construída a partir de materiais simples, robustos, baratos e disponíveis localmente. O azul brilhante dos caixilhos das janelas, que imitam a cor do céu do Nepal, são os únicos pontos coloridos que aparecem  na fachada de concreto cinza. Na verdade, parece um edifício comum que poderia ser encontrado em qualquer lugar do Nepal. No entanto, as 152 crianças que frequentam esta escola em idioma inglês da Gospel for Asia são a prova viva de que a rotina do dia-a-dia dentro Este edifício é capaz de mudar suas vidas, trazendo esperança para as suas famílias e de causar um impacto permanente em suas comunidades.

Esta escola em Margapuj, Nepal, é apenas uma das 28 espalhadas por este pequeno país encravado entre a Índia e a China. As escolas em idioma inglês da GFA – que fazem parte do programa  Ponte da Esperança -  são luzes brilhantes entre as pequenas oportunidades educacionais para os novos cidadãos do Nepal. A maioria das crianças matriculadas estão finalmente começando a educação que por tanto tempo lhes foi negada, por causa de seus antecedentes, situação familiar ou local de moradia.

"A maioria dos nossos alunos são de famílias de baixa casta, e eles não têm dinheiro para estudar em outra escola", diz Madhav Dami, diretor da escola Margapuj. "Os pais desses alunos estão muito contentes com a ajuda destes cristãos. Isso é bom."

A História da Pobreza Educacional

Proporcionar uma educação adequada tem sido historicamente um desafio no Nepal. Antes de 1950, havia apenas um punhado de escolas do país, e elas eram reservadas para as crianças da elite dominante. Depois de uma revolução política em 1951, o público exigiu um sistema de ensino estatal. Mas levaria mais 24 anos para que as escolas públicas se tornassem uma realidade.

E mesmo depois que as escolas públicas foram abertas e a frequencia passou a ser obrigatória, milhares de crianças ainda permaneciam sem ver o interior de uma sala de aula. Em alguns lugares, principalmente em aldeias rurais, os pais precisavam dos seus filhos para trabalhar nos campos e em casa. Alguns pais não vêem o valor de colocar uma criança na escola, especialmente as suas filhas. Em muitas áreas, particularmente nas aldeias aninhadas no alto do Himalaia, não haviam escolas públicas. As aldeias com sorte bastante para ter uma escola tinham dificuldade em atrair professores qualificados, salas de aula e muitas vezes permaneciam vazias.

Além disso, o rigoroso código social do sistema de castas mantinha muitas crianças Dalit (“Intocáveis") fora das classes. A sociedade via muito pouca necessidade de educar pessoas que cresceriam para limpar esgotos ou enterrar cadáveres.

Enquanto o governo estava se esforçando para criar um sistema de ensino público, uma série de escolas privadas surgiram para preencher as necessidades educacionais. As escolas que tiveram os melhores resultados foram aquelas que ensinavam as crianças em Inglês. Estas  escolas desenvolveram a reputação de proporcionar uma excelente educação. Os pais queriam que seus filhos estudassem em uma escola em idioma inglês acima de tudo.

Uma  “Guerra Popular” Fecha Escolas

O avanço do Nepal na disponibilização de educação pública foi rapidamente notado durante a revolução maoísta, que começou em 1996 e durou mais de uma década. Durante a crise, que os maoístas apelidaram de "Guerra Popular", tanto escolas públicas como privadas eram frequentemente fechadas por causa de ataques e tiroteios.

A educação pública sofreu outro golpe quando o governo deslocou o seu foco e recursos para combater a insurgência. O frágil sistema de educação do país começou a ruir. Muitas das escolas privadas também fecharam.

AS crianças do Nepal novamente se viram ociosas, sem professores ou salas de aula. A taxa de alfabetização do país estacionou em torno de 50 por cento. Foi durante este período tumultuado que a primeira escola em idioma inglês da GFA foi aberta no Nepal.>>

Comprovando o caráter de Cristo

O líder da GFA no país, Narayan Sharma, diz que a situação política e econômica no Nepal naqueles dias obrigava os obreiros da GFA a buscar constantemente a Deus em oração, para encontrar novas maneiras de compartilhar o seu amor.

“Nosso país estava desmoronando economicamente. Tivemos que encontrar alguma maneira de não apenas compartilhar Cristo com as pessoas, mas também de demonstrar o caráter de Cristo através de nossas vidas e através do nosso serviço para a comunidade", lembra ele."Então começamos a abrir estas escolinhas rurais  para as crianças em todo o Nepal.”

A primeira escola, que foi totalmente financiada por igrejas locais, foi inaugurada em 2005, no auge do conflito com o governo maoísta. Essa escolinha rural representou um passo monumental de fé. Ninguém tinha certeza se elas seriam aceitas ou quanto tempo seriam capazes de permanecer abertas.

"Os maoístas nunca permitiram quaisquer novas escolas nas aldeias porque eles não queriam que elas tivessem fins lucrativos, Sharma explica. "Mas eles nos aceitaram, porque não ganhávamos nenhum dinheiro com nossas escolas. Nós dizíamos a eles: É uma escola cristã e as nossas escolas são mantidas conforme princípios cristãos.

"E os maoístas ainda nos ajudaram a fundar escolas em muitos outros lugares! Quando haviam greves e outros problemas, eles fechavam outras escolas, mas diziam-nos que as nossas escolas deviam permanecer abertas."

As escolas em idioma inglês da GFA foram também rapidamente aceitas pela população local e pelo governo do Nepal, apesar de a sociedade não ter o cristianismo em alta conta.

"Os pais e o governo sabiam que estas escolas eram dirigidas por pessoas cristãs. Mas em momentos como este, uma nova escola é uma boa notícia para o governo", explica Sharma. "Então nós sentimos que esta era uma obra abençoada por Deus, pois nunca imaginamos ou pensamos que poderíamos ter tanta influencia. Estávamos oferecendo ensino gratuito à aldeia inteira!"

Hoje as escolas ainda são financiados pelos crentes que freqüentam as igrejas afiliadas à GFA em todo o Nepal, e os estudantes são patrocinados por meio da Ponte da Esperança.

"Pense em todas as vezes que o Nepal precisou da ajuda dos países ocidentais ou de projetos ou programas das Nações Unidas. E o que funcionou para nós começou em um vilarejo minúsculo, realizando um projeto nativo em nome de Jesus para abençoar as pessoas daquela comunidade. É uma coisa maravilhosa. É surpreendente", diz Sharma.

"Ninguém deve fechar a escola."

Cada escola em idioma inglês no Nepal criou enormes oportunidades para compartilhar o amor de Jesus. Ninguém sabe melhor disso do que o diretor Madhav Dami.

"Antes de começarmos, eles pensavam que os cristãos não eram boas pessoas. Eles não gostavam de nossa fé", explica Madhav. "Hoje, alguns alunos já escolhem seguir a Jesus após a vinda para a nossa escola. E muitos pais adotaram uma atitude mais positiva em relação  ao cristianismo." Os sentimentos anti-cristãos de muitos nepaleses não chegam a essas escolas cristãs. Os moradores locais amam as escolas e não poupam esforços para defendê-las, de acordo com Deepak Gurung, que supervisiona o ministério da GFA na área de Margapuj.

"Houve gente de outros lugares que já tentaram fechar uma das nossas escolas ", Deepak lembra. "Mas os pais vieram e se posicionaram na frente do edifício. Disseram aos forasteiros:” Não se deve fechar esta escola. Esta escola foi construída por nós, e é uma escola muito boa, por isso temos de mantê-la aberta. "Estes pais estavam dispostos a ir até o Departamento de Educação regional do governo para defendê-la."

Construindo Relacionamentos com os seus alunos

Um dos segredos para o sucesso das escolas em idioma inglês da GFA é que elas são dirigidas por educadores piedosos, qualificados e idôneos, que não estão comprometidos apenas com as crianças, mas também com toda a sua família. Isso significa que seu trabalho em sala de aula é apenas uma parte do trabalho total. Estes professores e diretores passam o seu tempo fora da sala de aula servindo na igreja local e procurando conhecer as famílias de seus alunos.

Madhav e seis professores de sua escola têm passado horas nas trilhas estreitas da montanha, contornando arrozais, caminhando  centenas de quilômetros para visitar as casas. Durante o ano letivo, eles visitam a casa de cada aluno pelo menos uma vez. Algumas famílias recebem visitas de vários funcionários da escola. As visitas têm uma tripla finalidade. "No começo eles falam sobre os filhos e como eles estão se saindo. Em seguida, distribuem alguns folhetos evangélicos e compartilham com eles sobre Jesus, e sobre o amor de Cristo", Madhav explica. E os professores sempre têm tempo para orar com as famílias também.

Uma tarde de sexta-feira, os professores de Margapuj foram até a casa de um de seus alunos, um menino chamado Deling. Quando chegaram, foram recebidos pelo pai de Deling. Ele era um pugilista famoso, de corpo musculoso que intimidava muitos no ringue. Mas neste dia, suas feições suavizaram, quando pediu aos professores para orar pela sua filha mais nova, Saranya. A menina tinha um problema mental que não poderia ser tratado na região remota em que viviam. Seu comportamento era tão imprevisível que a família a mantinha amarrada a uma árvore, para sua própria segurança. Ela passava os dias junto ao rebanho de cabras da família.

Depois que os professores oraram por ela, Saranya sorriu para o visitantes, completamente inconsciente de que sua condição trazia tanta tristeza e vergonha para sua família. Os olhos de seus pais se encheram de lágrimas de compaixão.

Desde então, os professores continuaram a rezar pela garota, cada vez que visitavam a casa de Deling. Saranya tem mostrado sinais de melhora durante os últimos meses, o que é um incentivo aos professores e pais.

Os Professores e a Verdadeira Sabedoria

Os professores foram para a próxima casa, onde visitaram a família de Chepan, um outro estudante. Os pais convidaram os professores, e todos se sentaram de pernas cruzadas no chão de uma varanda.

Depois de falar sobre o progresso de seu filho na sala de aula, Madhav perguntou ao pai do garoto se ele sabia algo sobre Jesus. "Sim, eu gosto muito do cristianismo", disse ele. "Mas eu não quero aceitá-la como minha religião, porque estou vivendo feliz como estou agora em minha comunidade. Se crermos em Cristo, se o aceitarmos, nossa comunidade vai nos ferir e nos oprimir". Madhav sabia que o que o pai de Chepan disse era verdade. Mas lançou um desafio:

"Eu também vivo nesta mesma comunidade", Madhav explicou. "Eu  nasci e fui criado nesta mesma aldeia. Mas eu aceitei Cristo porque Ele é verdadeiramente o único caminho."

Mas o pai de Chepan se mostrou muito indeciso  naquele dia, assim Madhav e os professores lhe deram alguns folhetos evangelísticos. À medida que o bate-papo entre pais e professores foi terminando, os professores perceberam que as crianças espreitavam atrás de uma porta. Madhav aproximou-se e abraçou Chepan e um sorriso enorme se abriu no rosto do menino.

Os professores visitaram várias outras casas naquele dia, conversando sobre educação e sobre a verdadeira sabedoria que se encontra em Jesus Cristo. No final do dia, eles estavam cansados, mas o foco de sua missão ainda era forte em suas mentes. "Nossa meta é chegar a essas crianças e aos seus pais com a Palavra de Jesus Cristo", Madhav afirma. "Nossa motivação é Jesus."

Mudando o Nepal de Amanhã

Estes simples atos, educar uma criança, cuidar de sua família e demonstrar a compaixão de Cristo na sua comunidade; estão fazendo algo que mil palavras apenas poderiam fazer; eles estão quebrando barreiras de longa data contra o cristianismo.

"O cristianismo sempre foi considerado uma religião para os incultos, os pobres e os povos oprimidos", observa Shikal Deuba, um missionário da GFA que supervisiona uma escola em idioma inglês e os pastores de uma igreja nas proximidades.

"Mas esta escola trouxe uma nova perspectiva para o povo. Ninguém podia acreditar que uma igreja, ainda mais uma igreja de pessoas pobres de baixa casta, tenha fundado uma escola oferecendo educação em Inglês! " Isto tem levado mais pessoas a visitar a igreja e, finalmente, transformado as suas vidas por toda a eternidade.

"O Evangelho torna-se mais eficaz, porque as nossas ações de amor se expressam através desta escola", diz o Pastor Shikal. Na escola de Shikal, seis famílias optaram por seguir a Cristo durante o primeiro ano em que a escola foi aberta. E todas as aldeias onde estas escolas estão localizadas estão tendo encontros semelhantes com o amor de Deus, na medida em que elas interagem com os funcionários da escola e com o  pastor local.

Narayan Sharma diz que coisas maiores ainda estão por vir. "Se agarrarmos esta oportunidade agora, nós poderemos mudar o Nepal de amanhã", diz ele sorrindo.

Fonte: Send Magazine - Primeiro Trimestre de 2010