Chegar em casa era a parte mais difícil do dia. Pastorear as ovelhas e as cabras no
campo não era tão cansativo quanto ouvir mais uma vez as reclamações de seus pais. Samida se tornara cristã na adolescência. Seu pai, quase cego, decidiu arriscar: "Se Jesus é tão poderoso quanto diz ser, ele irá curar minha visão".

Nada aconteceu. Nenhum milagre. Os pais ficaram profundamente desapontados com o cristianismo e com Jesus. Ambos decidiram retomar ao islamismo.

Isso não abalou a fé de Samida, que continuou a crer no poder de Jesus. Esse foi o início de uma longa jornada de sofrimento para ela.

Na solidão do campo, Samida desenterrava seu Novo Testamento do local onde o deixava escondido. Ler suas páginas ajudava a jovem a prosseguir em tempos de desespero. Esses eram seus minutos de refrigério antes de voltar para casa.

Os vizinhos já se encarregavam de trazer Samida à dura realidade de sua vila na Ásia Central. Ela estava com 20 anos de idade e - para a vergonha da família e deleite dos fofoqueiros - continuava solteira.

Na cultura predominante da Ásia Central, é de extrema importância que uma mulher se case e tenha filhos, de preferência meninos. É assim que uma mulher adquire respeito perante a comunidade. No geral, a mulher que tem mais de 21 anos de idade e continua solteira tem algum problema.

A fofoca dos vizinhos sobre a solteirice de Samida envergonhava seus pais. Eles descontavam sua frustração na moça: "É tudo culpa sua. Você nos desonrou ao se tornar cristã. Não é à toa que você não tem pretendentes!". Samida tinha de ouvir essas palavras todos os dias e, às vezes, ainda apanhava.

O extremo de sua humilhação se deu quando a mãe de Samida a encontrou lendo o Novo Testamento no campo. Samida foi agredida terrivelmente, e sua mãe, depois, queimou o Novo Testamento diante dos olhos tristes da jovem.

Hoje Samida tem 26 anos, e continua solteira. Da última vez que ela foi vista por um cristão, estava chorando e tinha um olho roxo. Sua mãe a arrastara pelos cabelos até o mercado da cidade e a castigou em público com uma vara.

"Minha mãe diz para todo mundo que eu sou uma mulher preguiçosa e má. Ela me trata como escrava. Eu trabalho dia e noite para os meus pais, e agora eles me dizem que não há espaço para mim na casa, que é melhor eu arranjar um lugar com os animais do rebanho. Aos olhos deles, não sou ninguém. Não posso nem sair de casa, porque aqui, se uma mulher vive sozinha, a comunidade acha que ela é uma prostituta."

ESTA É A SUA FAMíLIA

O testemunho de Samida reflete a realidade de muitos outros cristãos que têm de optar por viver com sua família ou seguir Jesus Cristo. Nem todos suportam o peso de serem rejeitados por seus próprios parentes e acabam desistindo da fé.

Mas há aqueles que, mesmo sem ouvi-Ias antes, já vivem estas palavras de Jesus: "Ninguém que tenha deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, ou campos, por causa de mim e do evangelho, deixará de receber cem vezes mais, já no tempo presente, casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, e com eles perseguição; e, na era futura, a vida eterna" (Mc 10.29-30).

A promessa de ser perseguido já está se cumprindo na vida de irmãos como Samida. A parte de ter o cêntuplo de casas e parentes conta com a participação da Igreja de todo o mundo para se cumprir. Isso porque quando alguém abraça a fé em Cristo, é abraçado por uma enorme família, que ultrapassa os limites de nações, culturas e línguas.
Essa família não funciona perfeitamente, dadas as nossas limitações como seres humanos. Entretanto, pela misericórdia de Deus, essa família sobrevive e, capacitada por Ele, transforma vidas.

UM A UM

Nem todas as famílias são como a de Samida. Há algumas em que todos os membros se tornam seguidores de Cristo, mas um de cada vez. Foi o que aconteceu com a família de Sandra*, do Oriente Médio.

Sandra tem cinco filhas. Como aconteceu a ela, cada uma de suas filhas teve um encontro particular com Jesus.

Nos últimos quatro anos, três das filhas mais novas se batizaram com Sandra, declarando publicamente seu desejo de seguir Jesus. No final de fevereiro deste ano, tivemos a alegria de saber que a filha mais velha de Sandra também quis se batizar.

É um caso raro. Essa família precisa de oração, pois o marido de Sandra não é cristão, e possivelmente irá escolher maridos muçulmanos para suas filhas. Na comunidade em que vivem, é o pai quem decide com quem sua filha irá se casar

15 QUILOS DE APOIO

 

 É justamente por meio da oração que aqueles que estão distantes de nós sentem-se parte de uma mesma família.

O contrário também é verdadeiro. Vários irmãos, ao comentar o tema do ano da Missão (Cristãos perseguidos: e se fosse você?) contam que ao interceder pela Igreja Perseguida experimentaram sua dor, choraram suas lágrimas e sentiram-se de fato membros de uma mesma família.

A Igreja Perseguida sente nossas orações? Sim. Não saberemos de todos os casos em que isso acontece, mas os relatos que chegam até nós são suficientes para mostrar que Deus cuida de seus filhos e levanta ajuda e intercessores no momento certo.

Gabriel Dikko é da Nigéria (27" posição na Classificação de países por perseguição) e perdeu seu filho, Basil, em um ataque. Basil tinha apenas 28 anos de idade quando foi esfaqueado por extremistas islâmicos.

Além da oração, foi proposta outra forma de demonstrar apoio a Gabriel e sua esposa: lançamos uma campanha de cartas para eles.

As campanhas de cartas funcionam da seguinte forma: irmãos enviam pequenos cartões à base da Portas Abertas de seu país. Após receber um volume considerável de itens, o escritório envia as cartas à base da Portas Abertas que atua na região em que mora o cristão que será beneficiado pela campanha. Essa base escolhe uma data para levar pessoalmente a correspondência.

Na visita feita a Gabriel em 2009, ele recebeu 15 quilos de cartas. Suas palavras resumem o sentido de família de Deus:

"Louvo a Deus pela minha vida. Sou grato também pelo poder do sangue de Jesus Cristo, que une todos os cristãos, independente de raça e nacionalidade. É apenas em Jesus que se pode testemunhar tal tipo de amor. Honestamente, acho difícil crer que eu, como sou, mereço essa atenção maravilhosa de gente que nunca vi antes. Veja como elas tiraram tempo para escrever e nos mandar essas cartas. Assim que as recebi, fiquei pensando quanto tempo levaria para terminar de ler todas.”

Creio honestamente no poder de Deus e em seu amor. Essas pessoas fizeram uma enorme diferença na vida da minha família. Temos aprendido a confiar em Deus e me sentir amado por pessoas maravilhosas de todo o mundo.

Nossos amigos e parentes ficaram impressionados conosco por causa dessas cartas. Até no meu trabalho as pessoas se surpreendem ao saber que pertenço a uma família maior, que se importa com a minha família e com a perda do meu filho".


EM TORNO DE UMA MESMA CAUSA

 

Como escreveu o irmão Gabriel, da Nigéria, só o sangue de Cristo pode unir pessoas de contextos tão distantes. A Portas Abertas é uma prova de que é possível haver gente de culturas, denominações e países diferentes agindo em harmonia por uma causa.

Atualmente, a Portas Abertas possui sete bases de projeto de campo (que supervisionam o trabalho em 50 nações); escritórios de divulgação em 20 nações (como o Brasil); e sua sede internacional, a Portas Abertas Internacional, está situada em três nações, cada uma cuidando de um aspecto diferente do ministério.

Embora os números possam parecer impressionantes, essa grande família entende que depende da direção do Pai celeste para dirigir o seu trabalho. Por isso, a oração ocupa papel fundamental em nosso trabalho, seja no dia a dia dos funcionários até às grandes reuniões de diretoria, nas quais são separadas horas diárias para a reflexão na Palavra e para a meditação pessoal.

A Portas Abertas conta com as orações de seus parceiros, e depende delas, para executar seu ministério. Entretanto, há algumas situações que se desenrolam no campo e fora dele que não podem ser compartilhadas por causa da sensibilidade da informação. Nesse caso, toda a ajuda em oração depende exclusivamente das pessoas que compõem a Portas Abertas. Idris é um caso desses. Sua história pode ser comentada agora por ter se passado há algum tempo, e porque ele se encontra protegido. Idris é pesquisador da Portas Abertas Internacional e vive em um país da África.

Em novembro de 2008, uma onda de violência religiosa assaltou a cidade em que morava. Idris foi um dos alvos do ataque: sua casa foi incendiada, e a família ficou presa no edifício. Graças a Deus, a família conseguiu sair ilesa, mas perdeu tudo o que havia na casa.

Levantou-se um clamor nos escritórios da Portas Abertas em favor desse irmão e de sua família. Ele foi realocado em outra cidade, e está fora de perigo. Meses mais tarde, Idris enviou uma carta de agradecimento, com as seguintes palavras:

"Nossos corações não são capazes de expressar a alegria que tomou conta de nós ao receber a ajuda de vocês num momento em que não sabíamos o que fazer. O diabo tentou nos desanimar, mas fomos fortalecidos por todos os que oraram por nós. Mesmo enquanto ficamos presos durante o ataque, suas orações, seu amor e socorro foram uma fonte de consolo e conforto para cada membro da minha família. Vimos uma manifestação do amor de Jesus Cristo em sua atitude.”


FONTE: REVISTA PORTAS ABERTAS – VOL. 28 – Nº 5