Porque é que a comunidade evangélica está sempre às voltas com o pecado entre suas lideranças, como disputas por poder dentro das denominações, escândalos sexuais e financeiros entre outros - para não citar nomes!  Não se passa um ano sem que sejamos afrontados com algum grande escândalo. Qual será o próximo?

Infelizmente, a história é uma testemunha desconcertante de que os líderes religiosos e seus seguidores são todos muito facilmente fascinados por dinheiro, sexo e poder, ou simplesmente pela indolência. Na história recente, paladinos evangélicos normalmente lamentavam a triste situação do liberalismo. Hoje, as lamentações são auto-dirigidas, desde o abuso da autoridade espiritual em proveito próprio, aos ensinamentos de doutrinas não-bíblicas ou até mesmo anti-bíblicas, até a aceitação de relacionamentos homossexuais em algumas igrejas.

É um consenso praticamente geral o fato de que a igreja evangélica reflete as disfunções da sociedade secular, das estatísticas de sexo pré-nupcial, aos índices de divórcio até os hábitos de compra. Para nossa consternação, dificilmente podemos ser considerados uma luz para o mundo, nem um ícone da vida abundante, transformada que deveria ser a igreja de Cristo. O que saiu errado?

A primeira resposta parece ser a de que não estamos pensando retamente ou nos esforçando o bastante. Alguns apostam na redefinição do evangelho em termos sociais, assumem que o problema é o individualismo. Outros apontam a formação espiritual: o problema é que somos preguiçosos e a disciplina espiritual é o caminho para um futuro mais piedoso. Outros dizem que precisamos do dinamismo do Espírito Santo: o problema é formalismo. Outros ainda reclamam uma maior responsabilidade comunitária ou músicas de louvor mais sérias, mais tempo em oração ou mais enfim de alguma outra solução mágica. Ou seja, se apenas fizermos algo MAIS, as coisas vão melhorar.

Já tentamos todas estas soluções, várias e várias vezes. A lamentável conclusão parece ser a de que, embora estejamos certos de que as portas do inferno nunca irão prevalecer contra a igreja, o espírito de mediocridade moral tem sido bastante vitorioso em nosso meio. Isto não apaga evidentemente os maravilhosos momentos em que a Igreja realmente funciona como igreja, quando então os que não pertencem a ela podem reconhecer os seus frutos! Esses momentos são puras dádivas, sinais do Reino vindouro.

Mas a história sugere que eles são intermitentes. A realidade é que a igreja, da corrupta Corinto até a amoral América, continua a ser uma instituição pecaminosa, cheia de gente pecaminosa. Talvez seja a hora de tentar uma nova abordagem, e fazer MENOS. A idéia de fazer menos parece escandalosa, porque a própria justificação do cristianismo está em jogo.

Jesus promete que nós não só vamos desfrutar da vida plena (João 10:10), mas que nós seremos sal e luz para uma sociedade que está morrendo (Mateus 5:13-16), e um exemplo de amor para um mundo que nos observa atentamente.( João 13:35). Paulo diz que em Cristo somos uma nova criação (2 Coríntios. 5:17), e que somos chamados a nos tornarmos como Jesus (Romanos 8:29).
Se nós não demonstrarmos uma vida transformada, a fé cristã vai parecer como uma fraude. Se as nossas igrejas não parecem mais essenciais do que o a ilha de Caras, qual é o sentido? Não admira que entremos em pânico ao encarar a nossa própria corrupção, ou quando alguém nos diz que pode haver algo mais importante a fazer do que lutar afoitamente por justiça. O problema não é novo.

Muitas igrejas do passado foram um verdadeiro fracasso, basta ler as cartas de Paulo aos Coríntios, com suas divisões doutrinárias e a sua libertinagem sexual. Na verdade, Paulo, apesar de todas as suas admoestações éticas, admite que, embora ele próprio quisesse fazer o bem, muitas vezes parecia incapaz de fazê-lo (Romanos 7). Mesmo no final da sua vida, depois de décadas de uma vida dedicada a Cristo, ele vê a si mesmo como o principal dos pecadores. (1 Timóteo 1:16). Isso aparentemente não se parece com uma vida vitoriosa . E ainda assim Paulo demonstra fidelidade a sua vida cristã. Ele continua confiante em sua transformação em Cristo. Como isso é possível?

Para começar, ele não coloca suas esperanças sobre si mesmo, ou sobre uma nova teologia, sobre uma comunidade especial, ou mesmo sobre a formação espiritual. Depois de descrever sua condição moral como "miserável", ele simplesmente diz: "Graças a Deus, por Jesus Cristo nosso Senhor! De modo que eu mesmo com o entendimento sirvo à lei de Deus, mas com a carne à lei do pecado” (Romanos 7:25).Por quê?

Porque "Não há, portanto, agora nenhuma condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus" (Romanos 8:1). A principal questão para Paulo não estava em lutar por uma transformação, mas em descansar no perdão. Que ele continuasse a pecar, e a pecar lamentavelmente, não era tão importante para ele como o fato de que nenhum pecado que ele pudesse cometer estaria além da vontade de Deus de perdoar - nada, nem mesmo sua natureza pecaminosa, poderia separá-lo do amor de Deus em Cristo! Não admira que ele tenha vivido em gratidão - fazendo menos!

Confirmando isto, todas as suas cartas exortam a que, em admiração e gratidão, "seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo" (Efésios 4:15), e ele está certo de que o cristão irá mostrar sinais desse crescimento! Mas Paulo diz que ele ainda é "carnal, vendido sob o pecado" (Romanos 7:14), e que ele vive com a promessa de que um dia "a própria criação há de ser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Romanos 8:21).
Embora exortando-nos sempre a permitir que a nossa gratidão pelo perdão de Deus transborde em obras de amor, ele nunca  imagina que o nosso progresso moral será algo digno de nota - nossos corpos estão mortos por causa do pecado (Romanos 8:10)!  Admirar as nossas boas obras é como olhar para a o ser amado, esticado em um caixão, comentando quão bem ele nos parece nestes trajes – como se eles lhe trouxessem algum benefício!

Em vez disso, Paulo coloca seus olhos sobre a promessa de uma transformação: "Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados", ele diz àqueles coríntios imorais. "porque a trombeta soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos transformados” (1 Coríntios15: 51-52). Embora ele esteja falando especificamente sobre os nossos corpos ressuscitados, toda a sua teologia aponta não para o presente, mas para o futuro. É uma teologia não de sinais e maravilhas atuais, mas de uma glória futura.
Sim, Paulo, por vezes fala como se essa transformação já tivesse ocorrido: Nós SOMOS uma nova criação! Mas ele fala dessa forma, porque aquele que morreu e ressuscitou por nós vai cumprir sua promessa de renovar toda a criação.

Mas o que Paulo nos diz também é que recebemos a herança da vida, e temos o seu testamento em nossas mãos. É só uma questão de chegar à nossa casa espiritual e recebê-la. Do mesmo modo que para aquela que está grávida, é apenas uma questão de tempo até que uma criança seja dada à luz. Um preço foi pago pelo nosso lar ideal, e é apenas uma questão de tempo antes que possamos morar nele. Nós vivemos em esperança! Enquanto isto, estamos vivendo em uma espécie de intervalo existencial. E este meio tempo, realmente, pode ser um tempo terrível, cheio de egoísmo e vaidade, ganância e violência, sujeito à decadência, como os nossos corpos e nossas almas sabem muito bem:
“O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo: se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados.

“Porque para mim tenho por certo que as aflições deste tempo presente não são para comparar com a glória que em nós há de ser revelada. Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus.

“Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou,na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus.

“Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora. E não só ela, mas nós mesmos, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo.” Romanos 8:16-23

Como Martin Luther King afirmou, o cristão é "ao mesmo tempo um pecador e um justo. Ele é um pecador na realidade, mas uma pessoa virtuosa pela certeza da justificação e da promessa de Deus de que Ele vai continuar a libertá-lo pecado, até que esteja completamente curado. E assim ele é totalmente livre na esperança, mas, de fato, um pecador. Ele tem o princípio da justiça, e assim continua sempre mais e mais a procurá-la, embora sabendo que ele é sempre mau."

Se vivemos nesta esperança, não nos sentiremos derrotados nem desejaremos abandonar nossas igrejas quando os nossos líderes caírem; ou quando a igreja nos decepcionar, ou mesmo quando virmos que as nossas próprias vidas humanas são tão miseráveis quanto a de Paulo. Em vez disso, vamos nos juntar a ele e dizer, "Graças a Deus através de Jesus Cristo, nosso Senhor! Não há, portanto, agora nenhuma condenação” (e não apenas de Deus, mas também de nós mesmos!) “para aqueles que estão em Cristo Jesus.”

Muitos com certeza, ao ler isso não poderão evitar um sobressalto ou um certo espanto. "Podemos, então continuar a pecar uma vez que o nosso esforço pessoal em busca da santidade realiza relativamente tão pouco, pois somos chamados, em primeiro lugar, a crer no evangelho?" (Romanos 6:15).

É claro que Paulo não está nos dizendo para abandonarmos a luta contra o pecado. Através de todas as suas cartas às primeiras igrejas por ele fundadas, ele nos recomenda a despojar-nos dos hábitos do velho homem (Efésios 4:22) ,  a não nos entregarmos às concupiscências da carne, nem apresentarmos o nosso corpo “ao pecado como instrumentos de iniqüidade” (Romanos 6:13),  pois se revivemos pelo Espírito, que vivamos também no Espírito. Em síntese, diz Paulo, precisamos estar alertas para não nos conformarmos  a este mundo; e nos transformarmos continuamente pela renovação da nossa mente, para que possamos experimentar em nossas vidas  “qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus.” (Romanos 12:2). Não somos mais escravos do pecado, mas fomos libertos em Cristo e tornados servos da justiça. (Romanos 6:17). Isso significa que temos agora a possibilidade da escolha, entre servir a Deus ou servir a nós mesmos.

Por que, antes de mais nada, aceitamos nossa herança? Porque nós estávamos cansados de viver na miséria da pobreza espiritual. Nós estávamos esperando contra a esperança de um dia desfrutar uma vida decente, sem ter que nos contentar com a morte, com a violência, com os prazeres efêmeros, com as dores e as injustiças deste mundo. Acreditamos na esperança de um dia desfrutar de uma vida plena, de felicidade verdadeira, de paz e de abundância. Vamos agora, que já somos herdeiros do Reino, desperdiçar nossa herança e abusar da liberdade que recebemos?

É precisamente porque nos foi garantida uma transformação espiritual que; em gratidão e com uma firme esperança, podemos começar a viver como se já tivéssemos recebido nosso prêmio. E quando tomado em gratidão, em vez de ansiedade ou luta, o jugo de Cristo é leve, e se parece menos com o fazer e mais com o descansar. No meio tempo de nossa espera, permanecemos em pobreza espiritual. Somos ainda pessoas desesperadas, carentes, contritas e pecadoras. Mas somos privilegiados, pois temos a esperança do Reino! Somos bem-aventurados por não confundirmos o futuro com o presente, o Reino do Céu, com o tempo em que vivemos. Somos benditos - felizes, alegres, gratos! – por vivermos não pela visão, mas pela fé na certeza da maior de todas as promessas de Deus.

Precisamos retirar nossos olhares muitas vezes hipócritas e moralistas de sobre as nossas igrejas, pois maior  é aquele que está nelas do que o que está no mundo. Precisamos nos focar em nossas próprias vidas, pois o nosso tempo está se esgotando e o Senhor está à porta.  Quando Ele chegar, como vai encontrar seus servos?

Estaremos neste dia como o servo infiel e negligente, que por julgar que tarda o seu senhor se entrega à dissolução e à iniqüidade, ou como o servo fiel e justo, que  diligentemente se incumbe de prover o sustento a seus conservos, que lhe foram confiados? (Mateus 24:45-51) Sejamos vigilantes, e apliquemos zelosamente os talentos que recebemos, para quando vier o Senhor nos encontre prontos para recebê-lo e Ele assim possa nos convidar : “Muito bem, servo bom e fiel; sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” (Mateus 25:21)