Ahmad Soussi - Marrocos

Aos dezessete anos, deixei o pequeno povoado onde nasci e viajei para Casablanca para
continuar meus estudos secundários, vivendo com meu tio e ajudando-o em seus negócios.
Na cidade adaptei-me ao que a maioria fazia. Não era difícil encontrar mulheres e homens
da rua. Fiz amizade e logo tornei-me um deles. Fracassei nos meus exames e colhi o que
havia semeado.

Um dia, a esposa do meu tio encontrou em minha mesa uma foto na qual eu aparecia com
algumas moças. Meu tio escreveu para meu pai pedindo-lhe que viesse logo. Quando ele
chegou, perguntou-me onde tinha passado o tempo.

— Jogando futebol — eu lhe disse.

Ele me mostrou a foto com as moças e exclamou:

— Vai embora, filho perverso. Você não é digno de ter a mim como pai!

Saí de casa e caminhei sem rumo pelas ruas. Um de meus velhos amigos pediu-me que lhe
contasse o ocorrido. Depois de dizer-lhe tudo, ele me perguntou:

— Por acaso você se esqueceu que eu passei pelo mesmo há cinco anos? Entretanto, não
desanimei. Finalmente, agora, estou livre da autoridade de meus pais!
— Você pensa que por estar perdido, você é livre? — exclamei.
— Chame do que você quiser — disse. O importante é que eu sei onde posso encontrar um
pedaço de pão e um lugar para dormir. Em nosso país não se pode pedir mais que isso. Se
eu estou perdido, você também o está. Se você vier comigo, conhecerá o nosso líder e
poderá trabalhar conosco.

O amigo conseguiu convencer-me, pois eu não tinha comida nem emprego. O chefe da
quadrilha ensinou-me a roubar. Roubei durante sete meses e assim obtive o dinheiro
suficiente para comer, fumar e beber. Mas a polícia descobriu o nosso esconderijo e uma
vez mais encontrei-me na rua. Então, com um amigo, trabalhei como carregador no
mercado de verduras. Um certo dia, meu amigo e eu tiramos a carteira da bolsa de uma
senhora. Fomos pegos e levados à delegacia de polícia. Confessamos o roubo e devolvemos
o dinheiro que nos restava. Quando o policial perguntou à mulher se queria acusar-nos
formalmente, ela respondeu:

— Não. Quero perdoá-los porque Jesus também me perdoou e perdoa o pecado de todos.

Estas palavras tocaram meu coração com um efeito duradouro. Quem é Jesus? Por que Ele
perdoa? Durante esse tempo, várias perguntas sem resposta me passaram pela cabeça.
Mas a lei não perdoa como Jesus e fui condenado a sete meses de cadeia. Meu pai sabia
onde eu estava. Quando me libertaram, ele foi ao meu encontro. Com os olhos cheios de
lágrimas, pedi-lhe que me perdoasse, e ele me perdoou.

No ano seguinte, meu pai matriculou-me numa escola de estudos corânicos. Para agradá-lo,
resolvi aceitar. Nesta época, li muitos livros de história, especialmente sobre a ocupação
romana no norte de África. Compreendi que antes do islamismo, a religião de nossos antepassados havia sido o Cristianismo. Os exércitos muçulmanos haviam obrigado as
pessoas a aceitarem sua religião e, por isso, nós também a seguíamos. Meu coração se
encheu de dúvidas e deixei de rezar porque jamais tinha encontrado satisfação espiritual.
Por essa razão, me consideravam não-religioso e tive que abandonar a escola.

A convite do meu tio, algum tempo depois voltei a Casablanca. Conheci, então, um homem
chamado Kamel, oriundo do Oriente Médio e proprietário de um restaurante. Certa vez,
perguntei-lhe sua opinião sobre religião e respondeu-me:

— Bem, Ahmad, eu sou cristão e não muçulmano como você pensa.
— Mas você é árabe — disse-lhe. Por acaso há cristãos entre os árabes?
— Talvez você se esqueça que na região do Oriente Médio houve muitas tribos e reinos
cristãos. Vocês aqui no norte da África pensam que somente os europeus são cristãos, mas
isso não é verdade.

Esse homem, então, entregou-me um Novo Testamento para que o lesse.
Quando cheguei em casa, tranquei-me em meu quarto e comecei a lê-lo. A primeira coisa
que me causou impacto foi o fato de que o evangelho estava em árabe e que sua mensagem
era válida para todo o mundo e todas as raças. Pude, então, saber com toda a certeza que
Jesus havia dito “aquele que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (João 6.36).
Em outra ocasião visitei Kamel e ele perguntou-me se eu já havia lido o Novo Testamento e
o que tinha achado. Respondi-lhe que já o havia lido e que os muitos versículos que
falavam do amor de Cristo haviam me comovido.

— E com relação à salvação? — ele me perguntou. Você leu que quem quer que n’Ele
creia, terá seus pecados perdoados?

Nada lhe respondi nesse momento, mas obtive os endereços de vários Institutos que
ofereciam cursos bíblicos por correspondência e pedi que me enviassem alguns. Por meio
deles, meus olhos se abriram para a verdade de Deus. Para aprofundar meu conhecimento
da Palavra de Deus, comecei a participar de estudos bíblicos com um irmão em Cristo.
Existe uma grande diferença entre meu passado e meu presente. Meu passado era escuro,
cheirava a álcool, mulheres e pecado. Meu presente é luz, cheio da alegria e da
tranqüilidade que provêm da fonte de toda a paz — Jesus.

Meu tio não havia notado a diferença. Uma noite, após o jantar, assisti a uma reunião sem
perceber que um vizinho, mandado por meu tio, estava me seguindo. Quando voltei, meu
tio atacou-me e na manhã seguinte, acompanhado pelo meu vizinho, levou-me à delegacia
de polícia. O oficial perguntou-me se eu havia roubado algo, pois o roubo é a queixa mais
comum.

— Não roubou nada, — disse meu tio — mas o que fez é muito mais grave e deve ser dito
publicamente. Ele negou sua religião. Eu preferiria que ele tivesse roubado algo; isso nada
seria em comparação ao que fez.
— O senhor nada tem a ver com sua religião e sua fé — disse o policial. Se ele trabalha
honestamente, pode pensar o que quiser. Isso não compete à autoridade
E, assim, deixou-me ir.

Meu tio, desiludido, incitou os vizinhos para me desprezarem e insultarem. Meu único
consolo eram as palavras do Evangelho. Alguns dias depois fui convocado a comparecer
perante um conselho composto por meu pai, meu tio, um vizinho, três líderes religiosos e
algumas outras pessoas. Orei antes de entrar na sala para que Deus me desse força e Ele me
fez lembrar: “aquilo que vos for dado naquela hora, isso falai; porque não sois vós os que
falais, mas o Espírito Santo.” (Marcos 13.11)

Um dos líderes religiosos começou a reunião, dirigindo-se a mim:

— Ouça, meu amigo, não aceite outra religião. Não seja tentado a mudar, porque as
conseqüências são muito graves.
Esperei que finalizasse e disse:
— Ouçam, meus amigos, vocês já ouviram falar de Jesus e seus milagres? Ele curou os
enfermos, acalmou tempestades, ressuscitou os mortos, viveu uma vida sem pecado,
morreu na cruz. O mesmo foi levantado dentre os mortos, subiu ao céu e vai voltar. Vocês
querem crer nEle?
Todos me olharam assustados, enquanto o líder religioso me esbofeteou:
— Como você pode abandonar a religião de seus pais e seus avós?
— A fé não é uma herança que se recebe dos pais — repliquei. É o resultado da ação do
Espírito Santo. Sempre serei, fisicamente, o filho de meu pai, mas espiritualmente sou um
filho de Deus. Ele me libertou da escravidão do pecado. Como vocês podem querer que eu
volte à escravidão?

Então, o líder religioso gritou energicamente para os presentes:

— Advirto-os que qualquer que coma ou durma sob o mesmo teto de um infiel como este,
será o mesmo que ele: um infiel.

Assim, pela terceira vez, lá estava eu na rua, sem trabalho e sem lar. Lembrei-me de um
amigo que era carpinteiro e fui vê-lo. Fiquei alguns dias com ele. Meu testemunho
comoveu-o, e, depois de algum tempo, ele também creu no Senhor Jesus como seu
Salvador.

Enquanto isso, não deixei de orar por um emprego. Um dia ouvi uma voz atrás de mim:

— Ahmad, venha aqui.
Era Brahim, amigo de meu pai, um importante homem de negócios da cidade.
— Quero saber de sua família — disse-me.
— Minha família está bem. Essa é a única notícia que tenho deles.
— Por quê?
— Eles me expulsaram de casa por causa da minha religião — expliquei-lhe. — Agora
estou procurando trabalho.
— Eu preciso de alguém. Se você quiser, poderá trabalhar comigo.
— Muito obrigado, mas você deve saber que sou cristão.
— Eu não me importo com a sua religião. O que quero é que você seja honesto e faça bem
o seu trabalho — foi sua resposta.

Dei graças ao Senhor e no dia seguinte comecei a trabalhar. Passaram-se dias, semanas e
meses. Todos os clientes apreciaram minha dedicação e minha maneira de tratá-los. Sete
meses depois, Brahim teve que viajar a negócios e me deixou responsável pelo comércio.
Quando voltou, convidou-me para ir à sua casa, dizendo:

— Aqui você tem algum dinheiro. Corte o cabelo, vista-se bem e venha jantar conosco.
Que tremenda surpresa tive ao entrar em sua casa! Estavam ali meu pai, minha mãe e
minha tia. Quando voltava de sua viagem, Brahim passou por minha cidade e trouxe minha
família. Atirei-me nos braços de meus pais, que me abraçaram com os olhos cheios de
lágrimas. Meu pai, em vez de reprovar-me, inclinou-se e disse em voz baixa:

— Ahmad, meu filho, perdoe-me pelo que fiz. No passado, seu tio contou-me de muitas
coisas sobre você e pensei que você fosse como outros jovens desocupados que andam
pelas ruas, vivendo com mulheres e tomando drogas. Essas notícias me entristeceram, mas
recentemente, quando Brahim me falou de você, fiquei muito feliz.
— Sim, pai — respondi, — eu era mesmo o que você pensava. Agora Jesus me ensinou
muito e me recebeu em seu rebanho, pois eu era uma ovelha perdida. Creio nEle e quero
servi-Lo para sempre. Vamos começar um novo capítulo em nossas vidas.

Compilado de:

Muçulmanos que Encontraram A Cristo
Testemunhos Vivos do Poder do Evangelho entre os Seguidores de Maomé
R. F. Wootton
Editora Sepal
1993