Michael Jackson, Madonna, Mick Jagger, Caetano Veloso e outros luminares do meio artístico são exemplos emblemáticos de uma identidade pessoal liquefeita, imprecisa e em constante mutação que caracteriza os indivíduos que se integram à ordem social da pós-modernidade.
Michael Jackson foi, dentre todos os ídolos populares, o que melhor expressou publicamente (pelo menos em parte), um processo pelo qual muitas pessoas em nossa sociedade passam de forma privada; ou revelada apenas de forma restrita a um grupo específico de relacionamento, o da transformação incessante da própria identidade.
Este processo de transformação de si mesmo, que até então era visto como uma busca de si mesmo, uma ânsia angustiada das pessoas para saber com certeza qual era a sua verdadeira personalidade, sucumbiu finalmente ao peso da incerteza revelado na ordem do mundo pós-moderno. Um número cada vez maior de pessoas não acredita mais que possua uma personalidade única e verdadeira, mas como tudo à sua volta,vêem a si mesmas como um tipo de "metamorfose ambulante", para citar uma expressão de Paulo Coelho, celebrada na canção de Raul Seixas. Para estas pessoas, se a felicidade não pode ser um estado permanente, também não faz sentido se apegar de forma permanente a valores como fidelidade, integridade e coerência; ou se comprometer de modo definitivo com o que quer que seja. O desafio é tornar este processo o mais natural e efetivo possível, no sentido de manter-se integrado e valorizado pelos grupos sociais de interesse de cada um.
Michael Jackson, como outros astros populares, são idolatrados exatamente por este motivo, pelo heroísmo de revelar publicamente este processo existencial que é uma verdadeira luta íntima de cada um, entre a vontade do eu e a vontade de Deus. Luta entre a busca desenfreada do coração pela felicidade terrena e o anseio ontológico do espírito pela felicidade eterna. Esta luta muitas vezes causa danos psicológicos irreparáveis e até mesmo mutilações físicas profundas, quer sejam expostas publicamente ou não. O valor pessoal destes ídolos não está propriamente em sua arte, mas no significado simbólico desta arte, como representação de sua luta existencial.
Esta luta, entretanto é totalmente estranha para o cristão, que não é oprimido pelo peso da incerteza existencial característica de nosso tempo. Embora não conheça ainda plenamente a sua verdadeira identidade espiritual, ele a contempla pela fé e se engajou em uma luta diferente, contra a carne e as paixões, pela realização desta identidade divina em si mesmo. A sua segurança não provém do mundo nem de suas ideologias, mas lhe é transmitida por Deus, o Pai celestial, que o acolhe no rebanho de Cristo e o conduz pelo mar de incertezas e tribulações do mundo, rumo à verdadeira vida.
Quando vinculamos a nossa identidade a qualquer fundamento que não seja Deus, vamos sempre viver inseguros ou insatisfeitos, por que nunca poderemos nos realizar completamente naquilo que fundamenta nossa identidade. Seja esse fundamento um papel social ou familiar, como a vida profissional, a paternidade, a vida conjugal ou a sexualidade, sempre nos sentiremos inseguros quando qualquer destes suportes foge do nosso controle e profundamente insatisfeitos e frustrados, quando eles não nos proporcionam a satisfação e a realização esperadas. Isto geralmente nos torna neuróticos e pode até mesmo destruir as nossas vidas.
Até mesmo quando vinculamos nossa identidade a algo abstrato como nossa liberdade e independência individuais, ou mesmo sobre coisas positivas como boas obras, fazendo entretanto disso um fim em si mesmo, estaremos sempre buscando nossa auto-glorificação e não a glorificação de Deus e portanto vivendo afastados de Deus.
O cristão não é menos humano por fundamentar em Deus a sua vida, mas a sua humanidade não se torna refém da vaidade, do egoísmo e da futilidade mundanas, pois está firmemente fundada na verdade do evangelho de Cristo, de quem extrai força para vencer a sua luta diária e o maior dos seus inimigos: o seu próprio ego. Ele não idolatra o que é efêmero, o que é corruptível, o que é falível, mas apenas o que é eterno, incorruptível, fiel e verdadeiro. Cristo é portanto o único ídolo do cristão, pois a cruz do seu sacrifício representa não apenas um símbolo desta luta, mas a certeza da vitória final contra a morte, contra o mundo, contra o pecado, contra toda dor e toda a incerteza, através da fé.
Ele não é menos humano por isso, mas a sua humanidade não se torna refém da vaidade, do egoísmo e da futilidade mundanas, pois está firmemente fundada na verdade do evangelho de Cristo, de quem extrai força para vencer a sua luta diária e o maior dos seus inimigos: o seu próprio ego. Cristo é portanto o único ídolo do cristão, pois a cruz do seu sacrifício representa não apenas um símbolo desta luta, mas a certeza da vitória final contra a morte, contra o mundo, contra o pecado, contra toda dor e toda a incerteza, através da fé.