As doutrinas não cristãs pregam que basta aos seus fiéis buscar viver segundo alguns nobres padrões éticos de conduta, aliados a ritualismos religiosos para alcançar a realização espiritual.

As filosofias humanistas repudiam a ideia de pecado e de um Deus pessoal, colocando o homem como único senhor de sua própria vida. Não admitem essas doutrinas sujar-se com o sangue de Cristo. Acho mesmo que essa idéia lhes é repugnante.

As ideias de culpa e pecado vêm sendo cada vez mais substituidas tanto pela psicologia, pela literatura de auto-ajuda e mesmo por correntes ditas evangelicas, pela ideia de auto-estima e pelo sonho da prosperidade e do bem estar pessoal. Com isto, pode-se dizer que o Homem perdeu quase por completo, o verdadeiro alvo espiritual de uma vida: a salvação da própria alma.

Ou na precisa observação de John MacArthur Jr.:

"Compramos a mentira da auto-estima. Queremos minimizar nosso pecado, eliminar nossa vergonha, encorajar nosso ego e nos sentir bem. Queremos, em outras palavras, todas aquelas coisas que enfraquecem a consciência. Detestamos a vergonha, mesmo que justificada. Odiamos o arrependimento porquê é difícil demais. Evitamos a culpa. Queremos a vida boa." (1)

Isto me lembra as palavras de Jesus:

E propôs-lhe uma parábola, dizendo: A herdade de um homem rico tinha produzido com abundância;  E ele arrazoava consigo mesmo, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. E disse: Farei isto: Derrubarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens;E direi a minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? (Lc 12:16-20)

A maioria das pessoas consideradas cultas e de boa posição social, se escandalizam e se sentem chocadas com a idéia do sacrifício de sangue de Cristo, que classificam de medieval. Entretanto, essas mesmas pessoas não se sentem tão chocadas com a violência cotidiana das ruas e muito menos com a repugnante violência silenciosa praticada contra os deserdados pela sociedade .

Mas essa rejeição ocorre na verdade por não se perceber a natureza totalmente transcendente do sacrifício de Jesus e a natureza visceralmente carnal de nossos pecados.

Quando se rejeita a idéia da purificação pelo sangue e pelo sacrifício, na verdade o que se rejeita é a própria natureza pecaminosa humana , herdada do primeiro homem, por toda a humanidade.

Sei disso porquê já comunguei destas doutrinas espiritualistas, e julgava absurda a idéia de um Deus que ordenava a seu próprio filho sacrificar-se neste mundo de forma tão brutal, para que a humanidade pudesse ser redimida.

Entretanto, Deus me mostrou um dia que hediondo era o estado de corrupção em que se achava minha natureza divina, estado esse comum a todos os homens e que ensejara a necessidade do sacrifício de sangue assumido por Jesus, por amor a mim.

Essa natureza degenerada sim é verdadeiramente odiosa, vil, cruel e digna de repulsa. Mas ignora-la e encobri-la sob um manto de nobres intenções e pomposos rituais, sejam meramente formais ou de conteúdo mágico, não a destruirá.

A Biblia diz que o homem se separou de Deus e corrompeu o seu estado perfeito e a sua comunhão com Deus pela transgressão espiritual (Gn 3:11). O pecado se entranhou na natureza humana e se propagou ao longo das gerações. A Biblia diz ainda que "todos pecaram e estão portanto destituídos da glória de Deus" (Rm 3:23)

A única forma de eliminarmos definitivamente de nosso ser essa natureza corrupta é através de Jesus Cristo. A crucificação do Filho de Deus para a redenção do Homem é um escândalo para muitos, mas para os que contemplam pela fé este mistério, trata-se da maior dádiva já dada ao Homem desde a sua queda.

Essa obra de redenção inicia-se com a conversão e a regeneração em Cristo, atos pelos quais somos justificados perante Deus, por nossa vida pregressa de erros e transgressões e nos propomos viver uma nova vida, totalmente dependente agora da vontade Deus e de sua Lei.

Recebemos assim de Deus, se entregamos sinceramente nossas vidas em suas mãos, a condição de filhos adotivos e passamos então a buscar, com todo nosso ser, conhecer o nosso Pai celestial, e aprendemos assim a ama-lo e obedece-lo, buscando também amar o nosso semelhante com a nós mesmos.

Apesar de havermos, por essa conversão, e pelo arrependimento sincero, obtido o perdão de Deus por nosso erros, de reconhecermos haver sido lavada a nossa alma pelo sangue de Cristo na cruz, continuamos carregando ainda a nossa natureza pecaminosa.

O sangue de Jesus nos purificou de nossa carga ancestral de pecados, mas não destruiu o nosso corpo de pecado. Cristo, em seu sacrifício, venceu a morte e o pecado. Isso significa que, se Cristo vive em mim, e se eu o tenho verdadeiramente como meu Senhor de minha vida, tenho também assegurada a vitória sobre a morte e o pecado, desde que eu me empenhe nessa batalha.

O pecado não pode prevalecer sobre mim, por si mesmo, embora eu ainda tenha entranhada em minha carne a natureza pecaminosa. Se eu viver os ensinamentos de Jesus e não apenas crer em seu sacrifício e suas palavras, amando, suportando e servindo, poderei então dizer, ao deixar esse mundo: Está consumado.

Terei então concluído a carreira, vencido o bom combate e consumado enfim em minha vida a vitória conquistada por Cristo para todos nós, sobre a morte e o pecado.

Esta obra requer um compromisso maior de cada indivíduo, de tomar a cada dia a sua cruz, ou seja, a carga de suas tribulações e provações, resultantes de sua própria natureza pecaminosa, e seguir adiante, com renúncia e abnegação até o dia de sua morte física.

Neste dia, teremos finalmente crucificado com Cristo o nosso corpo de pecado e herdaremos uma natureza inteiramente nova, incorruptível e livre do pecado.

Este evangelho é o verdadeiro evangelho de Jesus, que não faz apologia do sofrimento e da dor, como muitos criticam, mas sim da vida eterna e perfeita, plena de gozo e bem aventurança, no reino de Deus.

Essa vida tem um preço, a maior parte do qual no entanto já foi paga por Jesus, quando entregou como supremo sacerdote, a sua própria vida humana, por todos nós.

Este é o evangelho do caminho estreito, ao qual as doutrinas religiosas fecham os olhos, por preferirem pregar a seus fiéis um falso evangelho que acena com um caminho largo, uma vida de bênçãos abundantes e de plena felicidade ainda neste mundo, a qual pode ser facilmente conquistada pelos méritos de cada um.

Pregam um Deus mecânico, totalmente abstrato, que reage unicamente aos nossos atos e escolhas, para quem o nosso futuro espiritual depende unicamente da natureza desses atos e escolhas, segundo a visão oriental da espiritualidade.

Mas a palavra de Deus diz que não há nenhuma garantia de felicidade neste mundo, mas ao contrário, Jesus afirmou:

“No mundo tereis tribulações, mas tende bom ânimo. Eu venci o mundo” (Jo 16:33) e ainda:

"E quem não toma a sua cruz, e não segue após mim, não é digno de mim." (Mt 10:38)

E o mesmo Jesus, mesmo quando prometeu nos recompensar “cem vezes mais” por nossas boas obras, foi claro ao dizer que mesmo essa recompensa não estaria livre de “perseguições” (Mc 10:30)

Isto não significa que não devamos almejar viver uma vida materialmente próspera, saudável e plena de paz. Significa porém que não devemos fazer disso nossa meta maior de vida, mas nos deixar lavar pelo sangue de Jesus, aceitar naturalmente e suportar com boa vontade as tribulações, como algo inerente a este mundo, sobretudo na vida daqueles que verdadeiramente entregaram suas vidas a Deus


  (1) MacArthur Jr,John - Sociedade sem pecado - Ed. Cultura Cristã - p.189