Falando nesta semana no grupo de estudos do Esquadrão da Vida, sobre o tema "Cura Interior", percebi que, sem querer, havia ampliado muito o tema, e me vi de repente pregando sobre um assunto que nunca havia me detido para meditar.

Custei a entender a razão por quê Jesus perguntava a muitos dos que curava: "Queres ser curado?" Entretanto, por mais absurdo que possa parecer, a verdade é que muitos de nós pedimos a Deus para que nos cure de uma enfermidade, de um vício ou de um sentimento negativo, uma "raiz de amargura" mas no fundo de nossa alma, não desejamos realmente abrir mão daquele mal.

Muitos passam a depender daquilo que lhes faz mal, assim como daquilo que lhes faz bem. Ainda que racionalmente desejem se libertar desse mal, ele está tão arraigado em sua psicologia, que torna-se muito difícil viver sem ele.

Quando Jesus encontrou junto àquela fonte a mulher samaritana que vinha buscar água, disse-lhe:

"Qualquer que beber desta água tornará a ter sede; mas aquele que beber da água que eu lhe der nunca terá sede, porque a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água que salte para a vida eterna."  Jo 4:13-14

Diante desta  promessa de Jesus, como entender a imensa dificuldade que a maioria de nós tem de deixar de buscar diariamente a fonte de Sicar e aceitar essa água maravilhosa?

A dependência daquilo que dá prazer é mais fácil de compreender. Buscamos instintivamente aquilo nos proporciona prazer, ainda que momentâneo. É quase como saciar uma fome ou uma sede emocionais. Tendemos a cultivar a nossa "fonte de Sicar" emocional, a qual buscamos quase que diariamente, para saciar essa sede.

Falei ali depois sobre a necessidade de se fazer um profundo e sincero auto-exame de nossa alma, sob a luz do Espírito Santo, de forma a descobrir o que existe verdadeiramente no fundo do nosso coração. Precisamos também nos conhecer e não apenas conhecer a Deus.

Precisamos descobrir o quanto há de verdade em nossa  decisão de seguir a Cristo e de abandonar os nossos sonhos, desejos e planos pessoais e de nos entregar, incondicionalmente, à vontade de Deus.

Muitas das decisões feitas por chamados "convertidos" à fé cristã, são na verdade expressão de mais um desejo, uma vaga aspiração, sem a necessária avaliação das reais conseqüências de tal decisão. Jesus chamou a atenção para este erro, quando disse:

"Se alguém vier a mim, e não aborrecer a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. E qualquer que não levar a sua cruz, e não vier após mim, não pode ser meu discípulo.

Pois qual de vós, querendo edificar uma torre, não se assenta primeiro a fazer as contas dos gastos, para ver se tem com que a acabar?

Para que não aconteça que, depois de haver posto os alicerces, e não a podendo acabar, todos os que a virem comecem a escarnecer dele,dizendo: Este homem começou a edificar e não pôde acabar" (Lc 14:26-30)

Desejamos sim, todos os benefícios e as promessas da salvação, mas poucos de nós estão verdadeiramente dispostos a assumir o peso desta escolha, o compromisso de edificar essa casa até o fim. Enganamos a nós mesmos, tentamos enganar a sociedade, a família e a Deus.

Entretanto, Deus não pode ser enganado. Cedo ou tarde a verdadeira opção de nosso coração, o nosso verdadeiro tesouro, será revelado, ainda que não seja neste mundo.

"Senhor, tu me sondaste, e me conheces. Tu sabes o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento. Cercas o meu andar, e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos... Para onde me irei do teu espírito, ou para onde fugirei da tua face?" (Sl 139)

Quando conhecemos a verdade de nosso coração, podemos fazer uma escolha definitiva e real. O nosso sim será sim e o nosso não será não. Não há sentido em ser eternamente morno. O Espírito de Deus somente pode habitar o coração totalmente consagrado a Ele. Não há meio termo, Ele não pode dividir nosso coração com o mundo, por mais duro que isto possa parecer.

Meditando sobre o que havia falado ali com aqueles jovens, senti o quanto eu próprio estava precisando de um exame destes, de um mergulho profundo na realidade do meu coração. Sinto que ainda há em mim muitos desejos mundanos, muita carência de coisas que já deveria ter esquecido e muito apego a outras que reluto em abandonar. Ainda busco diariamente a minha fonte de Sicar.

Ainda não me deixei guiar totalmente pelas mãos do Pai, sem questionar os seus caminhos, com a confiança absoluta de uma criança. Como muitos cristãos, vivo ainda uma vida dupla, deixando dessa forma, de ser um instrumento realmente  útil à obra de Deus e adiando assim meu verdadeiro renascimento.