"Aproximou-se dele, então, a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, ajoelhando-se e fazendo-lhe um pedido. Perguntou-lhe Jesus: Que queres? Ela lhe respondeu: Concede que estes meus dois filhos se sentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino. Jesus, porém, replicou: Não sabeis o que pedis; podeis beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos.
Então lhes disse: O meu cálice certamente haveis de beber; mas o sentar-se à minha direita e à minha esquerda, não me pertence concedê-lo; mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai.
E ouvindo isso os dez, indignaram-se contra os dois irmãos.Jesus, pois, chamou-os para junto de si e lhes disse: Sabeis que os governadores dos gentios os dominam, e os seus grandes exercem autoridades sobre eles.
Não será assim entre vós; antes, qualquer que entre vós quiser tornar-se grande, será esse o que vos sirva;e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, será vosso servo; assim como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos." (Mateus 20:20-28)
Jesus respondeu à mãe de João e de Tiago que para que eles se assentassem ao seu lado, em seu Reino, seria necessário antes de tudo que eles fossem capazes de beber do mesmo cálice que ele iria beber, ou seja, que alcançassem a sua estatura espiritual. Ainda assim, tal honra somente poderia ser concedida por Deus. Quem portanto pode reinar com Cristo?
Muitos triunfalistas se vêm já reinando com Cristo, ao lado do Pai. Certamente reinaremos com Cristo, em seu Reino, não o velho homem evidentemente, mas como novas criaturas que nasceram de novo, cresceram espiritualmente e atingiram "a medida da estatura completa de Cristo" (Efésios 4:13).Se alguém crê que já alcançou tal estatura, que reinvindique então sua posição.
Como filhos de Deus nós temos autoridade sobre o mal, pregam sempre os triunfalistas. Os triunfalistas são aqueles que associam o fato de os cristãos serem filhos de Deus a uma vida próspera e livre de tribulações. A sua postura espiritual lembra muito aqueles famosos "filhinhos de papai" ou "mauricinhos", cuja arrogância e egocentrismo os leva a se sentirem como donos do mundo. Jesus, sendo Ele o Filho Unigênito de Deus e Rei dos Reis, veio ao mundo como servo, mas muitos de nós, sendo apenas filhos adotivos de Deus queremos ser reis, mas não sacerdotes. Queremos reinar mas não queremos servir.
Se vivemos uma vida de obediência à Palavra de Deus, e somos retos de coração, o Inimigo realmente não tem autoridade sobre as nossas vidas. Mas nem todas as nossas lutas e tribulações são obra do Inimigo. Jesus disse que no mundo teríamos sempre tribulações, por que elas são inerentes à ordem corrompida em que vivemos. Deus usa muitas vezes estas tribulações para a nossa edificação, pois é através das lutas pessoais que crescemos como cristãos e fortalecemos a nossa confiança em Deus. (Romanos 5:3-5)
Não devemos nunca nos esquecer da verdadeira humildade, que é a de lembrar que o direito que nos foi dado sobre o mal não foi conquistado por merecimento nosso, mas provém exclusivamente da graça de Deus, que nos resgatou do caminho da morte espiritual.
Devemos ter o cuidado também de não nos justificarmos a nós mesmos, e reclamar de forma legalista nossos direitos perante Deus, pois se é verdade que fomos justificados por Cristo por nossos pecados passados, precisamos ainda ser perdoados a cada dia pelos pecados que ainda cometemos e portanto ainda dependemos diariamente da misericórdia e da graça de Deus para que não percamos a nossa herança.
O perigo do legalismo é que quando o utilizamos para reivindicar de Deus os nossos direitos, com base naquilo que fazemos, nos sujeitamos a sermos julgados por Deus também de forma legalista, como servos inúteis, que fazem apenas aquilo que o seu senhor lhes ordena.
Por fim, é verdade que somos filhos de Deus e não vermes rastejantes sobre a terra, mas precisamos também nos lembrar, como fez Paulo, que somos filhos por adoção, isto é, filhos da misericórdia de Deus, que nos amou de tal maneira que nos enxertou como oliveira selvagem, no tronco santo da oliveira de Cristo, para que não perecêssemos com o mundo.
Por tudo isto, antes de nos arrogarmos o direito de exercer o poder que nos foi dado por Deus em Cristo para vencer o mundo, devemos nos lembrar que é exclusivamente pelo amor de Deus que temos esse direito, e antes de profetizar as suas bênçãos sobre as nossas vidas, rogar a Ele que nunca venhamos a decair de sua graça e que venhamos a ser considerados dignos de sermos chamados discípulos de Jesus, servos bons e fiéis, dignos da coroa de justiça que ele tem preparada para os que perseveram com Ele até o fim.
Devemos sim, como filhos do Altíssimo, profetizar sobre nossas vidas a prosperidade e a cura de nossas enfermidades, mas devemos sobretudo procurar conhecer qual seja a sábia e soberana vontade de Deus para as nossas vidas, pois se somos realmente discípulos de Cristo, estamos no mundo não para servimos a nós mesmos mas antes para servimos ao nosso Senhor e ao nosso semelhante, como a nós mesmos.
Jesus levou sobre si na cruz realmente as nossas dores e enfermidades, mas nos fez também com Ele co-herdeiros do seu Reino, e como tal recebemos a missão de construir com a sua Igreja este Reino aqui e agora, até que seja chegado tempo da restauração deste mundo, e possamos então gozar das verdadeiras riquezas que ele reservou os seus servos.
Jesus em tudo foi obediente ao Pai e assim como ele precisou sofrer e aceitar a sua cruz para fazer a vontade do Pai, também temos que tomar a nossa cruz se quisermos segui-lo, e isto muitas vezes implica sofrer humilhações, perseguições e a viver uma vida modesta. A alguns de seus servos Deus concedeu uma vida materialmente próspera, mas a muitos outros requereu aceitar uma vida austera, marcada por muitas lutas, como foi o caso dos profetas pré-cristãos e dos apóstolos de Jesus.
Jesus veio ao mundo em pobreza, não por que a pobreza seja uma virtude, mas por que para servir a Deus muitas vezes é necessário se contentar com o pouco. O apóstolo Paulo deu nesse sentido, o melhor exemplo de maturidade espiritual do verdadeiro cristão com relação à vida material quando afirmou: "Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância, como em padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece." (Filipenses 4:12-13)
Salomão demonstrou também sua sabedoria com relação a este assunto, pois descreveu claramente a postura equilibrada do homem que ama a Deus com relação às coisas materiais, em sua proverbial petição "Alonga de mim a falsidade e a mentira; não me dês nem a pobreza nem a riqueza: dá-me só o pão que me é necessário; para que eu de farto não te negue, e diga: Quem é o Senhor? ou, empobrecendo, não venha a furtar, e profane o nome de Deus." (Provérbios 30:8-9)
Cristo venceu o mundo, mas a meta de sua vida não era vencer o mundo, mas o de entregar a sua própria vida para realizar a obra redentora do Pai. Do mesmo modo, o alvo principal do cristão enquanto neste mundo portanto, não é o de vencer o mundo, mas o de realizar as obras que Deus espera que ele realize, como filho e como cidadão do Reino de Deus, ou seja produzir em sua vida os frutos da boa árvore, os frutos que produzem os galhos que estão verdadeiramente na árvore que é Cristo.